isto não é um poema:
não há construção
nem desconstrução,
tampouco versos,
apenas um fluxo
de palavras-refluxos
que o acaso regurgita
ao sabor do último almoço;
por isso paro, reflito, trato,
separo caules e folhas,
mastigo as sementes
[um gosto a cajá emana da boca],
desabrocho da planta a flor..
isto não é uma poesia:
não há lirismo
nem grandes emoções,
não há sentimento,
apenas um amontoado
de palavras-objetos
que o acaso despeja
no ferro-velho das lamentações;
por isso desperto, trago,
deixo o dito pelo inaudito,
mastigo o infinito
[um gosto acre constrange a boca],
desafogo do corpo o amor.
terça-feira, 12 de agosto de 2008
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
Um experimento com o tempo
O relógio, mutante,
delimita o tempo
[que não é]
num círculo de repetição
[que não é
aprendizagem, mas
apenas uma prisão].
delimita o tempo
[que não é]
num círculo de repetição
[que não é
aprendizagem, mas
apenas uma prisão].
sábado, 31 de maio de 2008
domingo, 25 de maio de 2008
Chuva de Maio
Maio,
Chuvosa manhã
Que se ergue,
Beleza prístina,
Acima dos prédios.
Desperta-me teu sabor mítico,
Teu cinza vário,
Teu desassombro em parecer imprevisível.
Restitui-me o gosto pela vida,
O brilho dos meus olhos,
Meu sorriso fácil.
Chuva,
Ritual das águas
Que são as mesmas,
Mas não são iguais,
No desenrolar perpétuo
Da pedra de Sísifo.
Sacia-me a sede
Das coisas naturais,
Da garganta seca
Dos gritos roucos de dor.
Encharca-me a roupa
Para que a ponha de lado,
E revele-me a alma
Na nudez do corpo.
Chuvosa manhã
Que se ergue,
Beleza prístina,
Acima dos prédios.
Desperta-me teu sabor mítico,
Teu cinza vário,
Teu desassombro em parecer imprevisível.
Restitui-me o gosto pela vida,
O brilho dos meus olhos,
Meu sorriso fácil.
Chuva,
Ritual das águas
Que são as mesmas,
Mas não são iguais,
No desenrolar perpétuo
Da pedra de Sísifo.
Sacia-me a sede
Das coisas naturais,
Da garganta seca
Dos gritos roucos de dor.
Encharca-me a roupa
Para que a ponha de lado,
E revele-me a alma
Na nudez do corpo.
segunda-feira, 24 de março de 2008
criação
a beleza está por um triz pra acontecer:
falta apenas um amanhecer.
enquanto o tempo insiste
em prolongar a madrugada,
percorro uma silhueta contra o luar:
a verdade que reside
na força desse traço
[qual escultura em bronze];
a delicadeza que persiste
na imprecisão do verbo
[qual flor em cruz];
o desejo que redime
no encontro dos contrários
[qual deus em criação]
falta apenas um amanhecer.
enquanto o tempo insiste
em prolongar a madrugada,
percorro uma silhueta contra o luar:
a verdade que reside
na força desse traço
[qual escultura em bronze];
a delicadeza que persiste
na imprecisão do verbo
[qual flor em cruz];
o desejo que redime
no encontro dos contrários
[qual deus em criação]
sábado, 15 de março de 2008
segunda-feira, 10 de março de 2008
o tempo
o tempo já não urge; ruge
em vermelho o rosto pálido, pálio
que cobre a carne perecível;
tenta tirar da noite sua perenidade [perpétua
idade sem discórdia] pela vacilação dos dias; idas
e vindas de um sol monocórdico;
carentes da beleza silenciosa do mantra
pulsante do firmamento [marfim
discreto no negrume ascendente];
o tempo já não ruge; resigna-se
ante a evidência singular de sua morte; temor
transfigurado em complacência.
em vermelho o rosto pálido, pálio
que cobre a carne perecível;
tenta tirar da noite sua perenidade [perpétua
idade sem discórdia] pela vacilação dos dias; idas
e vindas de um sol monocórdico;
carentes da beleza silenciosa do mantra
pulsante do firmamento [marfim
discreto no negrume ascendente];
o tempo já não ruge; resigna-se
ante a evidência singular de sua morte; temor
transfigurado em complacência.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
Arco-íris
Saltei do ônibus pro arco-íris. O mar estava lá, como sempre: as formas onduladas, as ondas tocando a areia da praia, sem descanso, o azul-marinho predominando. O céu também era o mesmo: azul, com uma enorme nuvem cinza-chumbo sobre o mar. O horizonte não escapava à sina de ser uma linha imaginária, mas aparecia tenazmente entre o azul meio apagado do céu da cidade e o azul forte do mar revolto. Pareciam entidades supremas, absolutas, o céu e o mar, um em cima, outro embaixo, abraçando o ar, que é a única coisa que entre eles há. As pessoas no ponto de ônibus do mesmo jeito que desde o começo: indiferentes. Apenas esperando o ônibus e pensando na vida, de costas pro arco-íris. E ele lá, majestoso, perturbador, o arco completo sobre o mar, de um começo a outro dava pra nadar, de seu ponto mais alto, grená, dava pra pular. Um arco-íris em alto relevo, saltando aos olhos, cores fortes e destacadas entre as cores pálidas do cotidiano. Cores feitas pelo sol.
Estava ali, de costas pra cidade, em frente ao mar, firmemente determinado a passar por aquele portal. Não entrevi o que me esperava além, mas no fundo, onde se engana todo mundo, sabia que era algo especular. Desci a escada e pisei a areia ainda de tênis. Cheguei-me à beira do mar como se chega à beira do abismo: amedrontado e fascinado ao mesmo tempo. Tirei toda a roupa que me cobria e entrei na água fria. Os pêlos eriçaram-se em meu corpo. Nadei pra depois das ondas: o mar me continha, eu fazia parte daquela imensidão. Senti-me indistinguível daquela massa soberana de água. A cidade parecia um mundo distante, fragmentado, uma forma feita de retângulos recortados e sobrepostos. O mar cobria meu corpo por inteiro, meu corpo inteiro se regozijava do mar. A amplidão era meu corpo, espalhando-se como os tentáculos de um polvo gigante ou como uma onda infinita que ricocheteasse nos obstáculos terrenos até perfazer todos os oceanos.
Quando passei o portal formado pelo arco-íris dei-me conta da jangada. Ela esperava, sem nome, com um baú de madeira pintado de verde. Subi nela automaticamente, como se fosse inevitável fazê-lo. Botei o baú entre os joelhos. Só então notei que o verde brilhava como uma coisa viva sobre a madeira. O sol batia naquela cor e a dispersava sobre o azul do mar, uma superfície que parecia intransponível a um mergulho mais profundo. Aquele verde não era tão forte quanto vislumbrei, mas calou qualquer imaginação. Estava vazio como se estivesse dormindo, pronto para ser acordado pelo conteúdo de sonho daquele estranho baú. Quando as mãos pousaram suavemente sobre ele, um leve tremor de excitação percorreu meu corpo. Abri-o de uma vez, sem esperar a surpresa num facho de luz intensa que me cegou por alguns segundos. Logo a jangada refez-se como um milagre ante meus olhos vidrados. O baú aberto também se materializou à medida que voltava a enxergar. Dentro dele um espelho de moldura laranja jazia. Peguei-o pela palma da mão direita com o polegar de sustentação. A imagem que se formou nele era meu rosto, mas meus olhos estavam sem cor. Não me assustei. Sabia, de alguma maneira, que aquela translucidez meio fantasmagórica, meio clarividente, não me impediria de ver o arco-íris. Olhei pra cima e ele estava lá, uma colorida cicatriz curva sobre o azul celeste. Olhei pra trás e a cidade não passava de um horizonte deformado, apenas uma linha imaginária criada pela conjunção ilusória entre céu e mar. Olhei pra frente e tudo que havia era água e um arco-íris pra me guiar.
Estava ali, de costas pra cidade, em frente ao mar, firmemente determinado a passar por aquele portal. Não entrevi o que me esperava além, mas no fundo, onde se engana todo mundo, sabia que era algo especular. Desci a escada e pisei a areia ainda de tênis. Cheguei-me à beira do mar como se chega à beira do abismo: amedrontado e fascinado ao mesmo tempo. Tirei toda a roupa que me cobria e entrei na água fria. Os pêlos eriçaram-se em meu corpo. Nadei pra depois das ondas: o mar me continha, eu fazia parte daquela imensidão. Senti-me indistinguível daquela massa soberana de água. A cidade parecia um mundo distante, fragmentado, uma forma feita de retângulos recortados e sobrepostos. O mar cobria meu corpo por inteiro, meu corpo inteiro se regozijava do mar. A amplidão era meu corpo, espalhando-se como os tentáculos de um polvo gigante ou como uma onda infinita que ricocheteasse nos obstáculos terrenos até perfazer todos os oceanos.
Quando passei o portal formado pelo arco-íris dei-me conta da jangada. Ela esperava, sem nome, com um baú de madeira pintado de verde. Subi nela automaticamente, como se fosse inevitável fazê-lo. Botei o baú entre os joelhos. Só então notei que o verde brilhava como uma coisa viva sobre a madeira. O sol batia naquela cor e a dispersava sobre o azul do mar, uma superfície que parecia intransponível a um mergulho mais profundo. Aquele verde não era tão forte quanto vislumbrei, mas calou qualquer imaginação. Estava vazio como se estivesse dormindo, pronto para ser acordado pelo conteúdo de sonho daquele estranho baú. Quando as mãos pousaram suavemente sobre ele, um leve tremor de excitação percorreu meu corpo. Abri-o de uma vez, sem esperar a surpresa num facho de luz intensa que me cegou por alguns segundos. Logo a jangada refez-se como um milagre ante meus olhos vidrados. O baú aberto também se materializou à medida que voltava a enxergar. Dentro dele um espelho de moldura laranja jazia. Peguei-o pela palma da mão direita com o polegar de sustentação. A imagem que se formou nele era meu rosto, mas meus olhos estavam sem cor. Não me assustei. Sabia, de alguma maneira, que aquela translucidez meio fantasmagórica, meio clarividente, não me impediria de ver o arco-íris. Olhei pra cima e ele estava lá, uma colorida cicatriz curva sobre o azul celeste. Olhei pra trás e a cidade não passava de um horizonte deformado, apenas uma linha imaginária criada pela conjunção ilusória entre céu e mar. Olhei pra frente e tudo que havia era água e um arco-íris pra me guiar.
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
Do ostracismo
Do ostracismo mostro a língua pro mundo,
O que vale dizer comer-vos-ei.
O ostracismo é um morro bem alto,
De onde vejo com olhos incrédulos
Pessoas-formigas se batendo lá embaixo.
A ostra cisma com o que não é fechado
Enquanto cismo com o exílio voluntário de mim mesmo.
O ostracismo é um bom lugar
Pra se olhar o firmamento.
O que vale dizer comer-vos-ei.
O ostracismo é um morro bem alto,
De onde vejo com olhos incrédulos
Pessoas-formigas se batendo lá embaixo.
A ostra cisma com o que não é fechado
Enquanto cismo com o exílio voluntário de mim mesmo.
O ostracismo é um bom lugar
Pra se olhar o firmamento.
Assinar:
Postagens (Atom)